Por James Gorman, The New York Times News Service/Syndicate

O nojo é a Cinderela das emoções. Enquanto o medo, a tristeza e a raiva, suas irmãs más e espalhafatosas, arrebatam a atenção dos psicólogos, o coitado do nojo tem sido escondido num canto, largado nas cinzas.

Mas isso não vai mais acontecer. O nojo tem agora seu lugar ao sol, pois pesquisadores estão descobrindo que ele faz mais que causar aquela sensação de enjoo. Ele protege os seres humanos de doenças e de parasitas, e afeta quase todo aspecto das relações humanas, do romance à política.

Numa série de novos livros e num fluxo consistente de trabalhos científicos, pesquisadores têm explorado a evolução do nojo e seu papel em atitudes frente a alimentação, sexualidade e outras pessoas.

Paul Rozin, psicólogo que é professor emérito da Universidade da Pensilvânia e pioneiro da pesquisa moderna sobre nojo, começou a estudá-lo com alguns colaboradores nos anos 1980, quando o nojo não era uma temática importante.

"Ele era sempre a outra emoção", diz Rozin. "Agora é um tema quente."
O que não quer dizer que agora vai usar sapatinhos de cristal - o que talvez seja melhor, pensando nos caminhos a serem percorridos. De todo modo, seu alcance leva o nojo para além dos domínios do podre e dos excrementos.

Falando na semana passada de uma conferência sobre nojo na Alemanha, Valerie Curtis, que se descreve como "nojóloga" da Escola de Higiene Pública e Medicina Tropical de Londres, descreveu sua emoção favorita como "incrivelmente importante".

Ela segue: "O nojo está na nossa vida cotidiana. Ele determina nossos hábitos de higiene. Ele determina o quanto nos aproximamos das pessoas. Ele determina quem vamos beijar, com quem vamos nos acasalar, perto de quem vamos nos sentar. Ele determina as pessoas que nós evitamos, e isso é algo que fazemos muito".

O processo começa cedo, explica Curtis: "As crianças no parquinho acusam outras crianças de terem pereba. Isso funciona, e as pessoas se sentem envergonhadas quando são objeto de nojo".

Alguns estudos apontaram que pessoas politicamente conservadoras tendem a ter mais nojo que os liberais. E está claro que o que as pessoas consideram nojento elas também tomam como imoral.

O fato de ser mais fácil expressar o nojo de maneira ética do que a raiva ou o medo também contribui para a popularidade do nojo com tema de pesquisa básica. Você não precisa insultar ou assustar alguém - só precisa de um cheiro ruim. E o nojo tem sido relativamente fácil de localizar no cérebro, onde frequenta a ínsula, a amídala e outras regiões.

"O nojo está se tornando uma emoção modelo", diz Jonathan Haidt, da Universidade da Virginia, pioneiro dos estudos do nojo junto a Rozin.

Essas pesquisas podem também ter benefícios práticos, incluindo pistas para o transtorno obsessivo compulsivo, que tem aspectos - como repetidas lavagens das mãos - que parecem ser um exagero do nojo.

E, inversamente, alguns pesquisadores estão tentando inspirar mais nojo pela sujeira e por germes para promover mais lavagens nas mãos e melhorar a saúde pública. Curtis está envolvido em esforços na África, na Índia e na Inglaterra para explorar aquilo que ela chama "o poder de enojar as pessoas para longe". Uma frase que parece ter efeito na Inglaterra para fazer as pessoas lavarem as mãos antes de sair do banheiro é "não leve a privada com você".

O nojo não foi totalmente ignorado no passado. Charles Darwin enfrentou o assunto no livro "A Expressão das Emoções no Homem e nos Animais". Ele descreveu a face do nojo, documentada por Guillaume-Benjamin Duchenne em seu estudo clássico de expressões faciais em 1862, como se alguém estivesse expelindo da boca alguma substância de sabor horrível.

"Nunca vi o nojo descrito mais simplesmente", escreveu Darwin, "que a expressão de um de meus filhos, aos cinco meses de idade, quando, pela primeira vez, puseram em sua boca água fria e, um mês depois, um pedaço de cereja madura".

Seu livro não tinha nenhuma imagem da criança, mas, por sorte, o YouTube tem numerosos vídeos de bebês degustando limões.

Os seres humanos são complexos, claro, como mostra o comportamento dos pais que dão limão a seus bebês e registram seu incômodo em vídeo, e a "cara de limão azedo" das crianças não é exatamente aquela do nojo adulto.

An undated handout image of the character "laddu lingam," who is used to promote handwashing with soap in India. What disgusts humans is proving irresistible to researchers exploring the evolutionary value of revulsion. (Srinivass via The New York Times) -- NO SALES; FOR EDITORIAL USE ONLY WITH STORY SLUGGED SCI DISGUST RESEARCH. ALL OTHER USE PROHIBITED. --

Aceita-se, no entanto, que o nojo evoluiu em parte para evitar que se ponha coisas ruins na boca, uma ideia já forte quando Rozin abordou o nojo. Ele e seus colegas desenvolveram a ideia de que o nojo foi então elaborado pela evolução cultural para incluir outras formas, uma delas baseada no desapreço pelos sinais da natureza animal dos humanos. Sexo, morte, fezes e comida ruim têm cheiro de animalidade.

Há muitas variações nas maneiras pelas quais os cientistas consideram o nojo hoje, mas uma nova abordagem dos psicólogos evolutivos foi organizada num número especial de dezembro do The Philosophical Transactions of the Royal Society B, "Evitação de doenças: dos animais à cultura", e numa conferência sobre "A evolução do nojo" este mês em Bielefeld, na Alemanha, à qual compareceram muitos dos mesmos cientistas.

Curtis contribuiu com esse número e com a conferência, e enfatizou antes de mais nada o nojo como uma adaptação para evitar micróbios e parasitas patogênicos, que envolve não só o paladar e o olfato, mas também a visão e o tato.

"Para mim a história é bem simples", diz ela. As origens animais do nojo envolvem diferentes maneiras pelas quais as doenças são espalhadas, incluindo as pulgas, então há uma variedade de sinais de nojo e formas de nojo.

Sob esse guarda-chuva evolutivo, no entanto, ainda há a pergunta sobre quais são os tipos de nojo. Haidt, Rozin e Clark McCauley, do Bryn Mawr College, afirmam haver nove diferentes tipos de nojo entre os norte-americanos. Curtis propõe sete categorias. Joshua Tybur, da Universidade VU em Amsterdam, propôs a existência de três domínios do nojo, três programas psicológicos distintos, para evitação de doenças, escolha de parceiro e julgamento moral.

"Pessoas sensíveis a um tipo de nojo não são necessariamente sensíveis ao outro", diz ele. Por exemplo, as afirmações mencionadas acima de que os politicamente conservadores (autoidentificados) fossem mais sensíveis que os liberais ao nojo eram excessivamente generalizantes. A pesquisa conduzida por Tybur e seus colegas apontou que os conservadores eram mais enojados por tópicos sexuais mas eram semelhantes aos liberais nos domínios da evitação de doenças e julgamentos morais.

Ainda assim, nem sempre é fácil dizer em qual âmbito fica uma forma do nojo, e não há razão para que mais do que uma não possa operar ao mesmo tempo com os estímulos certos. O assassino em série Jeffrey Dahmer matou e comeu pessoas com quem havia feito sexo - um nojo do tipo tríplice, se é que não houve outros.

Assassino em série Jeffrey Dahmer  (aqui)

Os pesquisadores têm tentado também precisar os mecanismos e o valor evolutivo do nojo. Daniel Fessler, antropólogo do Centro para Comportamento, Evolução e Cultura da Universidade da Califórnia em Los Angeles, investigou com seus colegas por que mulheres grávidas eram mais sensíveis ao nojo.

Eles descobriram que a sensibilidade à repulsão sobe com os níveis de progesterona. Isso vale para o primeiro trimestre de gravidez, quando mudanças de percurso no desenvolvimento do feto têm os efeitos mais complicados.

Num trabalho muito recente, diz Fessler, pesquisadores descobriram que mesmo para mulheres que não estão grávidas nem sofrem de náuseas o nojo acompanha os níveis de progesterona.

Uma função importante da progesterona, explica ele, é que ela reduz o sinal de um dos primeiros avisos emitidos pelo sistema imune, a inflamação, prevenindo que o embrião, ou o concepto, se implante na placenta. O embrião de oito células "na verdade destrói tecidos à medida que se aninha", diz. "O sistema imune da mãe por si só destruiria o concepto". Assim, ele e seus colegas consideram que, enquanto o corpo abaixa o sinal de um tipo de proteção, ele aumenta o sinal do nojo, outra forma de defesa.

Quaisquer que sejam os detalhes do nojo, seu poder de afetar o comportamento é inquestionável, e esse poder pode ser usado para o bem, diz Curtis. Assim, em um de seus projetos, ela trabalhou com uma agência de relações públicas na Índia para inventar uma campanha para incentivar que as mães lavem as mãos nas pequenas aldeias, o que poderia evitar a morte de muitas crianças por diarreia e outas doenças.

O resultado, que se encontra sob teste, é uma sátira com dois personagens: um, uma supermãe; o outro, um homem nojento e sujo. O homem faz doces usando lama e vermes, para no meio da narrativa para sair correndo porque tem diarreia, nunca lava as mãos e faz todo o possível para ser incômodo.

A supermãe é escrupulosamente asseada. A peça deixa claro que seus filhos não ficam doentes. Na verdade, seu bebê cresce e vira médico. Ela lava as mãos o tempo todo.
O espaço dado à diarreia nessa sátira não é acidental. Uma coisa importante sobre os estudos de nojo, diz Curtis, é que eles trazem à luz o quanto é importante falar das coisas que nos enojam, porque elas frequentemente constituem riscos para a saúde pública.

"O que é pior?", pergunta ela. Falar disso, "ou deixar as crianças morrerem?".

Lista de leitura: alguns livros recentes sobre nojo

- "Yuck! The Nature and Moral Significance of Disgust" ("Eca! A natureza e o significado moral do nojo"), de Daniel Kelly. MIT Press, 2011. 194 páginas.

- "That’s Disgusting: Unraveling the Mysteries of Repulsion" ("Isso é nojento: desvendando os mistérios da repulsão"), de Rachel Herz. W.W. Norton, 2012. 262 páginas.

- "The Meaning of Disgust" ("O significado do nojo"), de Colin McGinn. Oxford University Press, 2011. 264 páginas.

- "Savoring Disgust: The Foul and the Fair in Aesthetics" ("Degustando o nojo: o feio e o belo na estética"), de Carolyn Korsmeyer. Oxford University Press, 2011. 208 páginas.

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